Publicado originalmente no Jornal O DIASP (veja aqui!)
Três filmes, três olheiros, três escolas de pensamento. Em tempos de IA e novas tecnologias vale a pena conferir estas reflexões…
Em Curvas da Vida (2012), Gus Lobel (Clint Eastwood) representa o oposto. Décadas de estrada, olho treinado, ouvido que reconhece o som certo do bastão antes de qualquer planilha confirmar. Ele desconfia do número que não passou pelo seu próprio julgamento em campo. E também vence.
O duelo é falso. A leitura fácil é opor os dois filmes: dado contra intuição, tecnologia contra experiência. Mas nenhum dos dois vence sozinho pelo motivo que o rótulo sugere. Beane vence porque sabe interpretar a estatística dentro do contexto real do jogo — não porque ignora o campo. Lobel vence porque sua intuição é padrão reconhecido depois de milhares de repetições — o que a psicologia cognitiva chama de intuição especializada, diferente do simples achismo. A régua correta não é "dado ou instinto". É dado que informa a decisão, e experiência que dá sentido ao dado.
Por sua vez, Um Time Especial (2011) acrescenta uma variável que os outros dois filmes não tinham: o próprio critério usado para avaliar o talento. Mickey Tussler é autista, e por isso passa despercebido tanto pela estatística quanto pelo faro tradicional — não porque falte talento, mas porque os métodos convencionais não sabem reconhecer talento fora do padrão esperado. O time só descobre seu valor quando alguém aceita olhar além do modelo pronto e questiona se o problema está no jogador ou na régua que o mede. A lição é mais dura que a dos outros dois filmes: às vezes o erro não é escolher dado ou instinto, é usar um critério de avaliação incapaz de enxergar quem foge do padrão.
Para a advocacia: a jurimetria ajuda no cotidiano forense, antecipando cenários. Experiência e intuição ajudam a entender o contexto do caso. Mas nenhum dos dois enxerga o caso fora do padrão. O bom advogado usa os dados, usa a experiência e intuição, e sabe quando o caso do cliente não cabe em nenhuma das duas caixas, e justamente por isso pensa “fora da caixa”.
Para os negócios: só dashboard perde o cliente real. Só feeling do fundador repete erro antigo com confiança. Mas o crescimento maior vem de enxergar o cliente ou a ideia que nenhuma métrica atual sabe medir ainda.
Para a vida acadêmica: método sem campo vira teoria distante da realidade. Campo sem método vira opinião disfarçada de ciência. O avanço real acontece quando o pesquisador científico alia o método e o campo, enxergando novos padrões inéditos.
Finalmente, dado, faro e coragem para rever o critério: é isto que leva a decidir certo. Quem só mede o padrão conhecido perde o talento, o cliente e a descoberta que fogem dele. A boa decisão nasce de um olhar atento — e é dessa disposição que vem a esperança. Nem tanto ao céu nem tanto à terra… equilíbrio!
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