| (Estevam Avellar/TV Globo) |
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Boa leitura!
O Nosso BONDE Literário! Recanto da Arte!
O poema inverte a lógica colonial: não é o índio que precisa da "civilização" europeia, mas o português que chega impondo roupa, doutrina e violência num dia de chuva — e o "erro" está justamente na anedota histórica, ironizada como se a colonização tivesse sido apenas um desencontro de clima. Por trás do humor simples, Oswald denuncia a violência simbólica da catequese e do vestir/desvestir como metáfora de imposição cultural, um dos gestos centrais da poesia antropofágica de 22: usar a língua do colonizador contra o próprio colonizador.
Observe os textos abaixo!
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos sem amor eu nada seria
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidesse
O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte, mas não vejo face a face
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor nada seria
(Legião Urbana, 1989)
1 -
Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. […]
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sobre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. […]
(I CORÍNTIOS, s/d, 13:1)
2 -
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos, amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(CAMÕES)
Há semelhanças temáticas que merecem ser observadas: um texto do século XX estabelece um diálogo com dois textos que já possuem, no mínimo, cinco séculos de existência. A união desses dois textos, por sua vez, dá origem a uma verdadeira obra-prima da música brasileira.
Publicado originalmente no Jornal O DIASP (veja aqui!)
Três filmes, três olheiros, três escolas de pensamento. Em tempos de IA e novas tecnologias vale a pena conferir estas reflexões…
Em Curvas da Vida (2012), Gus Lobel (Clint Eastwood) representa o oposto. Décadas de estrada, olho treinado, ouvido que reconhece o som certo do bastão antes de qualquer planilha confirmar. Ele desconfia do número que não passou pelo seu próprio julgamento em campo. E também vence.
O duelo é falso. A leitura fácil é opor os dois filmes: dado contra intuição, tecnologia contra experiência. Mas nenhum dos dois vence sozinho pelo motivo que o rótulo sugere. Beane vence porque sabe interpretar a estatística dentro do contexto real do jogo — não porque ignora o campo. Lobel vence porque sua intuição é padrão reconhecido depois de milhares de repetições — o que a psicologia cognitiva chama de intuição especializada, diferente do simples achismo. A régua correta não é "dado ou instinto". É dado que informa a decisão, e experiência que dá sentido ao dado.
Por sua vez, Um Time Especial (2011) acrescenta uma variável que os outros dois filmes não tinham: o próprio critério usado para avaliar o talento. Mickey Tussler é autista, e por isso passa despercebido tanto pela estatística quanto pelo faro tradicional — não porque falte talento, mas porque os métodos convencionais não sabem reconhecer talento fora do padrão esperado. O time só descobre seu valor quando alguém aceita olhar além do modelo pronto e questiona se o problema está no jogador ou na régua que o mede. A lição é mais dura que a dos outros dois filmes: às vezes o erro não é escolher dado ou instinto, é usar um critério de avaliação incapaz de enxergar quem foge do padrão.
Para a advocacia: a jurimetria ajuda no cotidiano forense, antecipando cenários. Experiência e intuição ajudam a entender o contexto do caso. Mas nenhum dos dois enxerga o caso fora do padrão. O bom advogado usa os dados, usa a experiência e intuição, e sabe quando o caso do cliente não cabe em nenhuma das duas caixas, e justamente por isso pensa “fora da caixa”.
Para os negócios: só dashboard perde o cliente real. Só feeling do fundador repete erro antigo com confiança. Mas o crescimento maior vem de enxergar o cliente ou a ideia que nenhuma métrica atual sabe medir ainda.
Para a vida acadêmica: método sem campo vira teoria distante da realidade. Campo sem método vira opinião disfarçada de ciência. O avanço real acontece quando o pesquisador científico alia o método e o campo, enxergando novos padrões inéditos.
Finalmente, dado, faro e coragem para rever o critério: é isto que leva a decidir certo. Quem só mede o padrão conhecido perde o talento, o cliente e a descoberta que fogem dele. A boa decisão nasce de um olhar atento — e é dessa disposição que vem a esperança. Nem tanto ao céu nem tanto à terra… equilíbrio!
(Estevam Avellar/TV Globo) Saiba mais ! Boa leitura!