terça-feira, 13 de agosto de 2024

PEQUENO MANUAL DO ESCRITOR | TESES SOBRE O CONTO

 Por Ricardo Piglia 


"Reflexão importante sobre a estrutura do conto, do escritor argentino Ricardo Piglia, com tradução de Josely Vianna Baptista. O texto está no livro “O laboratório do escritor” (Ed. Iluminuras). Piglia é autor de vários livros, como “Respiração artificial”, “A cidade ausente”, “O último leitor”,  “Formas breves” e “Alvo noturno”."


1- Num de seus cadernos de notas Tchecov registrou este episódio: "Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida".

A forma clássica do conto está condensada no núcleo dessa narração futura e não escrita.

Contra o previsível e convencional (jogar-perder-suicidar-se) a intriga se estabelece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa excisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.


2- Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias. O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário.

O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.

3- Cada uma das duas histórias é contada de maneira diferente. Trabalhar com duas histórias significa trabalhar com dois sistemas diversos de causalidade. Os mesmos acontecimentos entram simultaneamente em duas lógicas narrativas antagônicas. Os elementos essenciais de um conto têm dupla função e são utilizados de maneira diferente em cada uma das duas histórias.

Os pontos de cruzamento são a base da construção.


4- No início de "La Muerte y la Brújula", um lojista resolve publicar um livro. Esse livro está ali porque é imprescindível na armação da história secreta. Como fazer com que um gângster como Red Scharlach fique a par das complexas tradições judias e seja capaz de armar a Lönrot uma cilada mística e filosófica? Borges lhe consegue esse livro para que se instrua. Ao mesmo tempo usa a história 1 para dissimular essa função: o livro parece estar ali por contiguidade com o assassinato de Yarmolinsky e responde a uma causalidade irônica. "Um desses lojistas que descobriram que qualquer homem se resigna a comprar qualquer livro publicou uma edição popular da "Historia Secreta de los Hasidim". O que é supérfluo numa história, é básico na outra. O livro do lojista é um exemplo (como o volume das "Mil e Uma Noites" em "El Sur"; como a cicatriz em "La Forma de la Espada") da matéria ambígua que faz funcionar a microscópica máquina narrativa que é um conto.


5- O conto é uma narrativa que encerra uma história secreta. Não se trata de um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é senão uma história que se conta de modo enigmático. A estratégia da narrativa está posta a serviço dessa narrativa cifrada. Como contar uma história enquanto se está contando outra? Essa pergunta sintetiza os problemas técnicos do conto.

Segunda tese: a história secreta é a chave da forma do conto e suas variantes.

6- A versão moderna do conto que vem de Tchecov, Katherine Mansfield, Sherwood Anderson, o Joyce de "Dublinenses", abandona o final surpreendente e a estrutura fechada; trabalha a tensão entre as duas histórias sem nunca resolvê-las. A história secreta conta-se de um modo cada vez mais elusivo. O conto clássico à Poe contava uma história anunciando que havia outra; o conto moderno conta duas histórias como se fossem uma só.

 A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história secreta se constrói com o não dito, com o subentendido e a alusão.


7- "O Grande Rio dos Dois Corações", um dos textos fundamentais de Hemingway, cifra a tal ponto a história 2 (os efeitos da guerra em Nick Adams) que o conto parece a descrição trivial de uma excursão de pesca. Hemingway utiliza toda sua perícia na narração hermética da história secreta. Usa com tal maestria a arte da elipse que consegue com que se note a ausência da outra história.

O que Hemingway faria com o episódio de Tchecov? Narrar com detalhes precisos a partida e o ambiente onde se desenrola o jogo e técnica utilizada pelo jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto se o leitor já soubesse disso.


8- Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta e narra sigilosamente a história visível até transformá-la em algo enigmático e obscuro. Essa inversão funda o "kafkiano".

A história do suicídio no argumento de Tchecov seria narrada por Kafka em primeiro plano e com toda naturalidade. O terrível estaria centrado na partida, narrada de um modo elíptico e ameaçador.


9- Para Borges a história 1 é um gênero e a história 2 sempre a mesma. Para atenuar ou dissimular a monotonia essencial dessa história secreta, Borges recorre às variantes narrativas que os gêneros lhe oferecem. Todos os contos de Borges são construídos com esse procedimento.

 A história visível, o jogo no caso de Tchecov, seria contada por Borges segundo os estereótipos (levemente parodiados) de uma tradição ou de um gênero. Uma partida num armazém, na planície entrerriana, contada por um velho soldado da cavalaria de Urquiza, amigo de Hilario Ascasubi. A narração do suicídio seria uma história construída com a duplicidade e a condensação da vida de um homem numa cena ou ato único que define seu destino.


10- A variante fundamental que Borges introduziu na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada da história 2 o tema principal.

 

Borges narra as manobras de alguém que constrói perversamente uma trama secreta com os materiais de uma história visível. Em "La Muerte y la Brújula", a história 2 é uma construção deliberada de Scharlach. O mesmo ocorre com Acevedo Bandeira em "El Muerto"; com Nolan em "Tema del Traidor y del Héroe"; com Emma Zunz.

 Borges (como Poe, como Kafka) sabia transformar em argumento os problemas da forma de narrar.


11- O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. "A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato", dizia Rimbaud.

 Essa iluminação profana se transformou na forma do conto.


Veja no site da Casa das Rosas (Leia mais!)

Boa leitura!

PEQUENO MANUAL DO ESCRITOR | A Literatura como direito do ser humano

Em seu texto Direitos humanos e Literatura, Antonio Candido defende que a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos sujeitos. Primeiramente, ele destaca o que são os direitos humanos, aqueles ligados a alimentação, moradia, vestuário, instrução, saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência a opressão, bem como o direito à crença, à opinião, ao lazer. 

Este são bens que asseguram a sobrevivência física e também a integridade espiritual. Neste gancho, Candido indaga: e por que não o direito à arte e à literatura também? Segundo o crítico, a literatura se manifesta universalmente através do ser humano, e em todos os tempos, tem função e papel humanizador. 

Mas como essa humanização se dá? De início, A. Candido destaca que chama de literatura, nesse texto, tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o folclore, a lenda, as anedotas e até as formas complexas de produção escritas das grandes civilizações. 

E defende a ideia de que não há um ser humano sequer que viva sem alguma espécie de fabulação/ficção, pois ninguém é capaz de ficar as vinte quatro horas de um dia sem momentos de entrega ao “universo fabulado”. 

Se ninguém passa o dia todo sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura (no sentido amplo dado nesse texto) “parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito” (CANDIDO, 1989, p. 112). A literatura é, para ele, “o sonho acordado da civilização” (p. 112), e assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem sonho durante o sono, “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura” (p. 112). 

É por esta razão que a literatura é fator indispensável de humanização e confirma o ser humano na sua humanidade, por atuar tanto no consciente quanto no inconsciente. A literatura tem importância equivalente às formas evidentes de inculcamento intencional, como a educação familiar, grupal ou escolar. 

Por isso, as sociedades criam suas manifestações literárias (ficcionais, poéticas e dramáticas) em decorrência de suas crenças, seus sentimentos e suas normas, e assim fortalecem a sua existência e atuação na sociedade. Antonio Candido salienta ainda: […] a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. 

Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (p. 113). O crítico ainda chama atenção para a questão do papel formador de personalidade que a literatura tem. 

Não podemos vê-la como uma experiência inofensiva, mas como uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, ou seja, a literatura tem papel formador de personalidade, sim, mas não segundo as convenções tradicionalistas; ela seria, na verdade, “a força indiscriminada e poderosa da própria realidade” (p. 113). 

A literatura, então, não corrompe e nem edifica, mas humaniza ao trazer livremente em si o que denominamos de bem e de mal. E humaniza porque nos faz vivenciar diferentes realidades e situações. Ela atua em nós como uma espécie de conhecimento porque resulta de um aprendizado, como se fosse uma espécie de instrução. 

A humanização, de acordo com A. Candido, é: “[…] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. 

A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante” (p. 117). Além disso, assevera que “[…] a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob a pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza” (p. 122). 

E defende o fato de que “a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual.” (p. 122), e por estas razões, a literatura está relacionada com a luta pelos direitos humanos. Em suma, o que o renomado sociólogo e crítico literário brasileiro defende é que a luta por direitos humanos abrange um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura. 

É por isso, portanto, que uma sociedade que seja de fato justa “pressupõe o respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (p. 126). 

Abracemos Antonio Candido!

Referência: 

CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E…Cjp / Ed. Brasiliense, 1989.

Veja no site da Casa das Rosas (leia mais!)

Leia o artigo "O Direito à Literatura" de Antonio Candido (leia aqui!)

Boa leitura!

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

IASP - Evento | Ler e Compartilhar: a potência dos clubes de leitura para o debate jurídico

Isto porque, segundo ela, a leitura de obras de ficção traz novos olhares, um melhor repertório de vida. Para ela, a ficção é maravilhosa para todos. 

Reportagem por Nicholas Maciel Merlone


sp. 08 de agosto de 2024. Atualizado às 22h03.

O mencionado evento ocorreu no tradicional e inovador Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), em 06 de agosto de 2024. Foi organizado pela Comissão de Direito e Literatura, gerida pelo presidente, Ricardo Peake Braga, que afirma que a Comissão é um suspiro, um oásis, e pela vice-presidente, Marina Bevilacqua de La Touloubre, que esclarece que a literatura é pacificadora e minimizadora de conflitos, além do secretário-geral, Maurício Felberg, que ressalta as obras de Piero Calamandrei. A palestrante, por sua vez, que nos brindou com relevantes e ricos conhecimentos sobre o tema, é a advogada Cibelle Linero.


Pois bem! Inicialmente, a palestrante procura trazer experiências sobre clubes de leitura, destacando que precisamos da literatura para viver. Explica que, geralmente, na faculdade lêem-se livros jurídicos. Ademais, no cotidiano, além do Direito, há a família, filhos e outras atividades que ocupam o tempo, o que, em tese, tomaria tempo para a leitura de obras literárias.

Linero, assim, explica que é possível haver um clube de leitura no escritório de advocacia, uma vez por mês, com a participação de todos: os advogados, estagiários, motoboys etc, por exemplo, no contexto de um café da manhã. Aqui, acrescento a possibilidade de não só em firmas de advocacia, mas também em escritórios de contabilidade, empresas, ONGs e no setor público.

Imagem: Pixabay.

Uma dica da palestrante é que não se repitam os escritores. É preciso, segundo ela, descobrir novos autores, como oriundos do Vietnã e outras origens. Ela destaca também a importância de obras de ficção e a relevância de se permitir ir além. Igualmente, expõe a literatura contemporânea, que permite uma discussão maior. Enfim, o clube configura um hobby.

Quanto ao formato, sugere que pode ser por meio de um grupo virtual (on line). Ou ainda, com reuniões híbridas. Em seu escritório, onde é sócia, o BMA há, por exemplo, o foco na diversidade, em que, neste tema, há um clube de leitura.

A seguir, destaca que, hoje em dia, é preciso estimular os jovens a adquirirem o hábito da leitura, de modo a atraí-los para clubes de leituras, e ainda que também criem clubes de leituras.

Jovens leitores. Foto: Pixabay.

Cibelle, então, ressalta que os clubes podem ocorrer em empresas, casas, enfim, qualquer lugar, não precisando de um formato certo. Enfim, pode existir em qualquer espaço, até mesmo em penitenciárias, como medida de remissão de penas.

Foto: Pixabay.

Com isso, pergunta se os advogados devem ler ficção. E responde de bate pronto: Sim!!!

Isto porque, segundo ela, a leitura de obras de ficção traz novos olhares, um melhor repertório de vida. Para ela, a ficção é maravilhosa para todos.

Esclarece que quando se reúnem as pessoas, com um mediador, este não necessariamente precisa ser um professor.

Foto: Pixabay.

O interessante é que cada participante terá um ponto de vista, uma opinião. Não deve haver unanimidade nos clubes, ou ainda, não deve haver julgamento e deve haver respeito à opinião do outro. Outro ponto de interesse é a realização de referências cruzadas.

Sob outro olhar, pode-se afirmar, conforme a palestrante, que os clubes de leitura são grandes terapias em grupo. Daí a importância de ouvir o outro, com o que se aprende muito, ouvindo a opinião alheia, o que aumenta o espírito crítico, além de aumentar a empatia, conhecendo o personagem e se apaixonado por ele.

Foto: Pixabay.

Neste momento, a palestrante cimenta uma regra de ouro. Apesar de o Direito ser político, não pode haver política partidária nos clubes de leitura. Isto deve ser vedado, já que desgasta as relações.

Outrossim, a expositora pondera a importância de ter a disciplina da leitura. Clubes induzem a uma disciplina, para incorporar a literatura na vida. Aqui, afirmo, quanto à disciplina, a necessidade de firmar um horário específico por dia, para se dedicar a leitura, bem como as horas dedicadas à prática, além da quantidade de páginas, que se pretende ler por dia, estabelecendo metas e objetivos plausíveis de leituras.

Foto: Pixabay.

No que se refere à temática, há, na realidade, várias formas, como assuntos ligados às mulheres, contos e crônicas (livros menores), diversidade e inclusão, clássicos, sobre a própria escrita, enfim, há realmente várias possibilidades.

Uma forma interessante de escolher a obra, seria por meio de uma enquete no WhatsApp. Uma outra sugestão da advogada seria trazer convidados especialistas em autores, para discorrerem sobre suas obras, como tradutores, escritores etc.

Foto: Pixabay.

Fundamentalmente, elucida que qualquer um pode criar um clube de leitura. Ademais, o mentor pode ser qualquer pessoa. Para tanto, é preciso estimular as opiniões dos integrantes, com respeito, acolhimento, sem julgamento.

É interessante, por exemplo, que os encontros sejam mensais e, além disso, há sempre uma experiência nova. Há pessoas que participam há 10 anos e outras pessoas novas, que começam a participar das atividades.

Um ponto essencial é que ninguém é obrigado a ler. Por outro lado, a expositora conclui: a comunidade é feita de pessoas, é bom conhecer pessoas e a literatura é um caminho para isso, é preciso, por fim, estimular os jovens a ler.

Foto: Pixabay.

Depois do término da exposição, o presidente da Comissão afirma que cabem livros jurídicos clássicos em clubes de leitura, para “abrir a cabeça”. Além disso, que no Direito há uma tradição enorme de poetas juristas e dá um furo, apontando que, na próxima revista do IASP, terá um artigo sobre “Os poetas legisladores”. Realmente, para Ricardo, destaca-se a sensibilidade dos poetas.

Maurício, por seu turno, afirma que ninguém lê Pontes de Miranda de uma hora para outra, mas Calamandrei, sim!!! E na ocasião, eu aproveitei para acrescentar a obra: As Boas Relações entre Juízes e Advogados.

Na ocasião, discutiu-se também a grande relevância da leitura de ficção, no contexto da ética e da literatura, citando-se, assim, a obra A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. 

Liev Tolstói. Foto: Wikipédia.

Enquanto isso, Marina traz algumas ponderações. De início, dá um spoiler que, no próximo encontro, será abordada por ela a obra de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, sob o olhar do direito de família e propriedade. Sobre o clube de leitura, afirma que é algo acolhedor, não precisa de ser uma obra clássica. Destaca a importância da abertura, do acolhimento, do compartilhamento das diferenças de percepções.

Neste ponto, frisa o direito à literatura como direito fundamental, segundo Antonio Candido. Daí a relevância do acesso à literatura, que possibilita o mergulho no autoconhecimento.

Antonio Candido. Foto: Wikipédia.

No evento, também se debateu sobre a literatura como fonte de poder, como um veículo para se compreender as relações, de modo que o poder intelectual deve buscar o equilíbrio.

Imagem: Pixabay.

Finalmente, Cibelle encerra, lecionando que os clubes podem ser temáticos, jurídicos ou não, por exemplo, de ficção, enfim, cada clube tem o seu DNA.

sábado, 3 de agosto de 2024

4 dicas para organizar metas de leitura alcançáveis

Veja como alguns hábitos podem ajudar a inserir mais livros na sua rotina

Por Portal Edicase


Publicado em 30 de julho de 2024 às 16:37

Estabelecer o hábito da leitura é fundamental para a saúde cognitiva e amplia a capacidade criativa


Segundo uma pesquisa do site Os Melhores Livros (OML), 30,9% dos participantes desejam ler mais de 20 livros em 2024. No entanto, 31,8% dos entrevistados apontam a falta de tempo como o principal obstáculo para alcançar essa meta.


Independentemente do gênero, a leitura estimula o cérebro e é benéfica para a saúde mental. Um estudo da Universidade de Sussex revelou que ler pode reduzir os níveis de estresse em até 68%. Além disso, esse hábito melhora a escrita, amplia o vocabulário, desenvolve a criatividade e fomenta o senso crítico individual.

Pensando nisso, André Palme, diretor de conteúdo e marketing do Skeelo (ecossistema de livros e leitura) lista algumas dicas práticas para os leitores organizarem suas metas de leitura. Confira!


1. Defina metas reais


Estabelecer metas alcançáveis dentro de cada realidade é essencial para garantir o cumprimento do objetivo, seja escolhendo a quantidade de livros por mês ou o número de páginas que serão lidas por dia. “Além disso, também é importante definir prioridades na lista de leituras e as revisitar de tempos em tempos para ter certeza de que ainda se adequam às necessidades de cada leitor”, explica.


2. Defina um tempo para leitura


Reservar um tempo específico para dedicar à leitura é um fator determinante para transformar um hábito diário e facilitar o cumprimento das metas. Ter um horário fixo ajuda a incorporar a prática como parte da rotina. “Para os iniciantes do mundo da literatura, uma boa estratégia é ir aumentando o tempo gradativamente de forma que não fique cansativo e o leitor consiga ir aumentando a concentração”, reforça.

Compreender o seu gênero de livro favorito é uma das estratégias para não abandonar a leitura

3. Descubra o seu gênero favorito


Entender o perfil dos livros que estão na lista é necessário para não abandonar a leitura inacabada por falta de identificação com o estilo literário. Alternar entre diferentes gêneros pode ajudar o leitor a descobrir qual o seu preferido e que mais atrai sua atenção, além de contribuir para manter a prática interessante e evitar o tédio.



4. Participe de clubes de leitura


Juntar-se a um grupo de leitura pode proporcionar motivação extra e um senso de comunidade. “Discutir os livros com outras pessoas pode enriquecer a experiência de leitura , além de contribuir para o conhecimento de novos títulos, autores e gêneros literários”, reforça o executivo.


Por Pérola Rodrigues


Fonte: Jornal Correio.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Dr. T, Sr. N, Sra. X, a Humanidade e o direito

Por Nicholas Maciel Merlone

Três amigos discutem sobre a importância do direito e do papel dos operadores do direito nessas relações.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Atualizado às 12:07


Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça... É ela... É ela! Doce menina, mulher... professora e advogada, que a todos encanta, fascina e intimida, com seu doce balanço, sutil gingado e inteligência e humor imensuráveis. Enfeitiça e por sua magia prende e aprisiona os dois amigos, que a observam chegando ao bar, com sua entrada magistral. Unhas das mãos e dos pés, francesinhas. Tornozeleira fina e discreta. Pequena tatuagem em forma de estrela em um dos pés. Cabelos longos, soltos e castanhos. Pele dourada, com marquinha de biquíni. Vestido vermelho, dama de vermelho, com licença para matar. Áurea e espírito a engajar!

Dr. T e Sr. N não a viam há anos. Muito tempo havia passado, desde a última vez que a viram. Realmente, desde os tempos do mestrado (2012 a 2014). Tinham boas lembranças. Os três estudavam juntos para as provas. Frequentavam o saudoso Bar Roda-Viva, na Vila Madalena, onde se tocava Chico e todos tomavam cerveja de engradado em copo de boteco, junto com porção de macaxeira. Frequentavam também o Jazz Nos Fundos, também na Vila Madalena, onde escutavam os sons que tocavam as almas e enalteciam o espírito, tomavam uísque cowboy e fumavam charutos.

Na verdade, os dois amigos eram perdidamente apaixonados pela moça. Mas ela não dava mole. Pra nenhum dos dois. Era uma disputa saudável. Mas ela não queria nem saber. Havia uma grande amizade, um forte elo entre os três.

Sentados, hoje, de frente para o balcão do bar, tomam suco temperado de tomate. Lembram dos tempos passados. Conversam sobre séries, filmes e livros, sem deixar de tocar no direito.

Mas o que chama a atenção é a mudança de comportamento, que afeta os jovens de hoje. Quando estavam no início do mestrado, havia Facebook e Twitter, mas mal se ouvia falar em Instagram, WhatsApp, ou ainda, muito menos, TikTok ou Snapchat.

Entre goles e baforadas... refletem sobre a Humanidade.

Hoje, dois irmãos na mesma casa, em quartos diferentes, conversam por mensagens de celular, sem ir ao encontro um do outro. Uma garota de 30 anos, sim, garota, e não uma legítima balzaquiana, após num encontro conversar por horas com um rapaz cara a cara, diz que ele não é confiável por não ter um perfil no Instagram. Ora! É quase uma religião, uma questão de fé! E aliás! Qualquer um pode postar o que quiser nas redes sociais. Há até quem poste vídeos e converse com seus seguidores, que, na realidade, não existem! Loucura! Também há jogos em que se criam animais de estimação virtuais, preferindo-os no lugar de um companheiro canino de carne e osso. Há ainda uma disputa por seguidores, em alguns casos, tendo milhões deles, sem, no entanto, ter quase amigos na vida real. É live para cá... tuíte para lá! Metaverso! E se esquece das boas e enriquecedoras relações pessoais e reais! Loucura pura mesmo! Aonde vamos parar?! Para aonde caminha a Humanidade?!

Os três amigos, então, discutem sobre a importância do direito e do papel dos operadores do direito nessas relações. O direito deve regulá-las. Evitar abusos, fraudes e crimes. Ter um caráter preventivo e também repressivo. Mas, mais que isso, um caráter pedagógico. Orientar as condutas. Guiar os passos. Possui, portanto, uma função social. Um relevante papel a ser desempenhado, para a convivência em sociedade e o bem-estar social.

Entre goles e petiscos filosofam...

Tudo isso não significa ficar para trás, no passado. Desatualizados. Peças de museu. Não. Pelo contrário, é possível, esperamos, manejar e conduzir bem as relações virtuais e presenciais. O cenário é um pouco obscuro, mas é preciso, apesar de tudo, termos esperança. Vermos o copo meio cheio. Sermos otimistas racionais e não pessimistas amargos. Assim como tudo na vida... Mas, mesmo assim, não escondemos, o que vem pela frente, nos preocupa. E nos perguntamos: Será que somos os únicos?! Na realidade, não somos os únicos. Mas cremos, aparentemente, que somos poucos! Hoje, diante das mudanças cada vez mais aceleradas, parece-nos que há apenas duas alternativas. Ou se está na rede. Ou não se está. É preciso, pois, escolher! O que vai ser!?

A tarde de domingo avança e os três amigos conversam mais, bebem mais, comem mais, observando uma partida de xadrez disputada por dois jovens, numa mesa, num grande tabuleiro empoeirado, aos goles de guaraná e coca-cola e beliscos de batatas fritas com maionese. Enquanto isso, o Timão vence o Peixe por 2 a zero, no Itaquerão!

Sr. N, muito prazer, Dr. T

Por Nicholas Maciel Merlone

Num bar na Avenida Paulista...

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Atualizado em 10 de novembro de 2021 07:37


Num bar na Avenida Paulista, no Paraíso, num sábado à noite, numa esquina movimentada da Rua Manoel da Nóbrega, dois Hermanos trocam ideias, filosofam regados à cerveja sobre os rabos de saias, entre baforadas de charutos, conversam sobre política, economia, negócios, literatura, cinema, e acompanham os doces balanços dos gingados dos sambas, que desfilam pela luz da passarela. Não se viam há tempos. Tinham estudado juntos durante o mestrado em direito político e econômico no Mackenzie, idos de 2012 a 2014.

Fazia realmente tempo que não se viam. Terminada a pós-graduação, cada um seguiu seu rumo. Um foi lecionar. Outro foi advogar. Um caia na noite. Outro se casou e teve filhos. Mas, eram amigos próximos e a amizade, com certeza, não acabou com o passar dos anos. Desta vez, quando se reuniram novamente, era como se tivessem se reunido ontem mesmo e o papo simplesmente fluía.

- Saudações mackenzistas! - disseram os dois Brothers, ao mesmo tempo, se abraçando.

- Sr. N!, quanto tempo, meu amigo!

- Dr. T!, digo o mesmo, meu querido!

- E os bambis?!                                                           

- É, pois é, não tão bem quanto os gaviões!

- Ceni, sem dúvida, um grande jogador! Já como técnico...

- Zetti também foi um grande ídolo. Mais tranquilo...

- Voltando no tempo, lembro do Raí e de seu irmão Sócrates.

- Raí... Um ótimo jogador em campo e no campo com as mulheres. Um legítimo são paulino!

- Sim! Tem razão! Já o irmão mais velho, Sócrates, um verdadeiro craque e democrata! Um legítimo timoneiro!

- Com certeza, sem falar que, certa vez, na concentração da seleção, lia um livro deitado na cama, o que causou surpresa e estranhamento ao colega de quarto quando o avistou, imerso na leitura.

- Sim... sim... Tem razão!

Eis que pela frente dos dois amigos... um doce balanço, um doce gingado, um doce feitiço, pura magia!

O assunto então se volta a elas! Mulheres e filmes...

- Lembro de Penélope Cruz, em "Volver", de Almodóvar, uma bela fotografia panorâmica da moça lavando louças, com os seios à mostra e em movimento! - diz um dos amigos.

- Verdade! - concorda o outro e recorda - Maria Flor, em "Dois Irmãos" - excelente performance no ato da cena!

A seguir, voltam aos tempos de faculdade, quando ainda não se conheciam, para compartilhar informações quentes da época.

Sr. N diz:

- Estagiei na Defensoria Pública na área de Direito de Família. Só barraco. Mulher querendo sacanear o marido. Marido querendo sacanear esposa. Causas legítimas. Sem falar quando o assistido caminhava horas, sem dinheiro para transporte, para chegar e ser convidado a voltar num outro dia, já que nada podia ser feito no momento. Lamentava muito na ocasião não poder oferecer um tratamento melhor e mais digno àquelas pessoas. Mas lembro do trabalho empenhado e dedicado de algumas amigas defensoras, que tinham e defendiam um ideal, uma busca constante por justiça social. Aliás, tive uma chefe gata, inteligente e que tornava o ambiente mais leve. Carinhosamente, me apelidava por "Nikolai". Também muito paciente, pois, certa vez, com confiança demais, abordei-a com um poema, que resultou num educado e sutil esporro e um delicado chute na bunda...

Dr. T afirma:

- Bacana! Eu, por outro lado, estagiei no Ministério Público. Pude conviver com amigas estagiárias e amigos estagiários fantásticos! Conversávamos bastante! Trocávamos várias ideias não só sobre direito, mas também cinema e literatura. Tínhamos pequenos intervalos, quando sentados à uma mesa de um bar, tomávamos guaraná com café e conversávamos sobre aqueles temas e também sobre futebol e teatro. Sem falar de música... escutávamos Legião Urbana e cantávamos no Karaokê juntos em alto e bom som, às sextas-feiras após o expediente, regados à breja e porções de fritas com maionese temperada. Para minha sorte, tive um chefe muito gente boa! Corrigia o português das petições. Emprestava e sugeria livros. Oferecia o espaço de trabalho para estudarmos para as provas da faculdade. Dava conselhos e sugestões. Organizou um evento sobre Justiça, Ministério Público e Direito Digital, quando ainda os processos eram impressos e encostávamos o umbigo no balcão do cartório para fazer os andamentos. Um verdadeiro, acima de tudo, ser humano e também promotor de justiça! Não um simples promotor de acusação!

- Mudando de assunto. Tem visto algum filme bom? - pergunta Sr. N.

- Na verdade, lembrava esses dias de filmes das antigas. - responde Dr. T.

- Quais? - indaga Sr. N.

- Lembrava de American Pie e, antes ainda, de Porky's - A casa do amor e do riso. - diz Dr. T.

- Sim... sim! Desenterrou! O primeiro anos 90 e o segundo anos 80. - prossegue Sr. N.

- Excelentes filmes! - afirma Dr. T.

E os dois amigos lembram às gargalhadas das estórias dos filmes. Aliás, Kim Cattrall, famosa pela personagem Samantha em Sexy and the City, antes, atuou não só em Loucademia de Polícia, como também no próprio Porky's, aos uivos em cena épica, verdadeira loba, hoje em dia.

- Ah! À propósito, temos eleições para a Oab sp agora em novembro. - lembra Dr. T.

- È vero! - concorda Sr. N.

E os dois amigos concordam nesse aspecto. Os dois votarão na chapa da oposição. Patrícia Vanzolini e Leonardo Sica são os cabeças da chapa. Os dois, advogados criminalistas. Uma pequena grande mulher como presidente. Para representar nós advogados à frente. Não atrás, nem ao lado. Mas, sim, à frente. Uma profissional competente. Já Leonardo Sica, por sua vez, foi um notável presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), com uma gestão eficiente e marcante, preocupado com o bem-estar dos associados, providenciando e disponibilizando todo o suporte necessário para a advocacia.

Finalmente, a hora voa. Os dois Hermanos não veem a hora passar. Não se dão conta do tempo. Quando olham o relógio, já havia passado horas. A madrugada já chegava de repente. Cogitam, assim, emendar no boteco uma ida a um pub da região. E, de fato, a noite lhes convidava a mergulhar em seu sutiã. Não puderam recusar tal honroso convite! E assim seguem a caminhada...

Já no dia seguinte, pela manhã...

Um deles decidi ir à Igreja. Levanta, toma café, se veste e vai à missa. Uma bela missa, sim. As altas abóbodas preenchidas pelo som imponente, forte, pulsante e alto do órgão (piano) tocado, bem como os cantos gregorianos dos religiosos, causam impacto nos fiéis, que acompanham o ritual atentos.

Esperava ouvir mensagens sensatas que lhe trouxesse amparo espiritual. Porém, o que restou foram lorotas e groselhas, reflexões sobre ser Santo. Que todos deveríamos querer ser Santos. Que Santos também pecam, mas devem querer se tornar Santos, buscar o perdão. Ora! Não somos Jesus! Ninguém é Jesus! Jesus é muito ocupado com causas nobres! Quem me dera querer ser Santo. Quem sou eu para ser Santo? Quem somos nós para querer ser Santos? Não somos Padre Pio, Frei Galvão, ou Madre Teresa de Calcutá. Tentemos, sim, fazer o bem sem ver a quem e isso não tem nada a ver com querer ser Santo. Aliás, antes de aceitarmos tudo goela abaixo, devemos, sim, refletir se queremos ser ovelhas por vocação. Rebanhos guiados com a rédea presa. Ou termos liberdade, Fé e razão - uma Fé racional razoável. Não apenas Fé burra!

Por fim, por outro lado, tem apenas outra coisa... É sabido que altas autoridades eclesiásticas gastam verdadeiras fortunas com advogados para certos religiosos que frequentam, dentre outros locais, saunas gays e participam de certas festinhas reservadas - mas nada contra quanto a isso, o importante afinal é ser feliz. Todavia, aí pior e abominável. Há alguns que se insinuam a jovens, algumas vezes, quando sozinhos em confissão, ou ainda pior, em situações delicadas e de fragilidade. E agora José? Ou seria, Jesus... 

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